Trilogia de Sêneca

Gosto muito das edições de bolso da L&PM e da Companhia das Letras. São livretos pequenos, levinhos para levar na bolsa (para os rapazes, no bolso) e nunca nos deixam sós – principalmente em viagens! Dentre esses, recentemente li a trilogia de tratados filosóficos de Sêneca: Da vida retirada, Da tranquilidade da alma e Da felicidade.

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Sêneca (Lucio Anneo Sêneca, o Moço) nasceu no ano 4 A.C., em Cordoba, na Espanha. Foi um dos mais célebres advogados, políticos, escritores e filósofos do império romano. Em Roma, o triunfo político não acontecia impunemente e a notoriedade de Sêneca suscitou a inveja do imperador Calígula. Por sorte, o imperador morreu antes de conseguir destruí-lo. Depois de passar um tempo exilado na Córsega, Sêneca foi chamado para educar Nero, o filho do imperador Claudio. Mais tarde, quando Nero tornou-se imperador, Sêneca tonou-se seu principal conselheiro e tentou orientá-lo quanto a uma política de justiça e humanidade. Em 65 D.C., o tirano Nero acusou Sêneca de participar da Conspiração de Pisão (que intencionava assassinar o imperador) e ordenou que Sêneca praticasse o suicídio. Conta-se que sua morte foi uma lenta agonia.

A seguir, os três últimos capítulos do tratado Da tranqüilidade da alma, estruturado como um diálogo entre Sêneca e seu amigo Sereno, de grande valia para os tempos atuais:

XVIII

Faz-se necessário muito recolhimento para dentro de si próprio. O contato com aqueles que são de outro nível atinge nosso equilíbrio, renova paixões e excita debilidades latentes e tudo o que não esteja bem curado.

Solidão e companhia devem ser mescladas e alternadas. Esta desperta o desejo de viver entre os homens, aquela, conosco mesmos. Portanto, uma é remédio pra outra. A solidão irá curar a aversão da multidão, e a multidão, o tédio da solidão.

XIX

Igualmente, não se deve manter a mente fixa apenas num único objetivo, ela deve ser conduzida, por vezes, às distrações. Sócrates não se envergonhava de divertir-se jogando com os meninos. Catão relaxava o espírito com o vinho, quando se sentia cansado das preocupações da vida pública. Cipião exercitava seu corpo triunfante e militar através da dança.

………………….

Deve-se dar à alma algum descanso. Repousando, ela se torna mais atilada para a ação. Assim como não se deve exigir demais dos campos férteis, porque uma fertilidade nunca interrompida os esgotaria, também o trabalho contínuo abate o ímpeto das almas, cujas forças se recuperariam com um pouco de descanso e de distração. Quando o esforço é demais, ele transmite à mente certo esgotamento e frouxidão.

Certos homens não tenderiam tanto para passatempos e jogos se disso não tirassem algum deleite. A frequência, no entanto, absorve do espírito toda a força. Também o sono é muito necessário ao descanso, porém, se for contínuo, levará a morte. Existe muita diferença entre o afrouxar e o desligar.

Os legisladores instituíram os dias festivos para coagirem publicamente os homens a se alegrarem, interpondo ao trabalho uma interrupção necessária. Portanto, como já disse, grandes homens se davam mensalmente alguns dias de férias. Outros, enfim, alternavam uma jornada de trabalho com outra de lazer.

Lembremos do grande orador Asínio Polião, que de nada se ocupava após as quatro horas da tarde. Ele não lia nem uma carta depois essa hora, para que não surgissem novas preocupações. Assim, em duas horas repunha as energias gastas durante o dia. Alguns cessavam suas atividades ao meio-dia, reservando as horas da tarde para os trabalhos mais leves. Nossos antepassados vetavam, após as quatro horas, sessão no Senado. À noite, os soldados dividem as vigílias, e delas estão livres os que retornaram de alguma expedição.

XX

Convém ser condescendente com a alma e dar-lhe algum descanso que atue como um alimento restaurador. Os passeios devem ser feito em lugares abertos, para que a alma se fortifique com o ar puro. Às vezes, um passeio, uma viagem com mudança de região. Isso proporciona energia renovada.

Igualmente, uma refeição alegre e uma bebida mais abundante, podendo chegar à embriaguez, não para nos afogarmos, mas para nos divertirmos, porque dissolve as preocupações, comove até o íntimo da alma e cura não apenas a tristeza, mas também outras doenças. Baco foi chamado de livre por não soltar a língua, mas por libertar a alma da servidão das preocupações e fazê-la mais forte e audaz para todos os desejos.

Assim como para a liberdade, a moderação também é saudável em relação ao vinho. Comenta-se que Solón e Arcesilau eram dados ao uso do vinho. No entanto, a embriaguez de Catão foi reprovada. Quem quer que fosse que o reprovava, é mais fácil tornar o vício honesto do que manchar a dignidade de Catão.

Mas não se deve fazer referência a isso com frequência, para que o indivíduo não seja levado pelos maus costumes. De toda forma, é necessário, de vez em quando, afrouxar as rédeas, para interromper, de leve, a moderação e leva-la à exultação e à liberdade.

Demos crédito ao poeta grego: “De vez em quando é alegre enlouquecer”. Também Platão afirmava: “Em vão se dirige às portas das musas quem tem o domínio de si”. Ainda Aristóteles: “Nunca existiu um grande gênio sem nenhuma mistura de loucura”.

O espírito, quando despreza as coisas vulgares e costumeiras e se ergue ao alto por um instinto sagrado, então, por fim, entoa palavras divinas com boca mortal. Enquanto o espírito está atrelado a si mesmo, o sublime fica inatingível. É necessário que se afaste do costumeiro, que se liberte e, soltando o freio, arrebate consigo o cavaleiro, que é conduzido às alturas, aonde jamais chegaria só por si mesmo.

Aqui estão, meu caro Sereno, os meios para conquistar a tranquilidade e a forma como podes recuperá-la, já que tens como resistir aos vícios quando aparecem sub-repticiamente. Porém, e isso já deves saber, nenhum deles é suficientemente forte para conservar um bem tão frágil se não houver intenso e assíduo cuidado.

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