Sobre os protestos

O dia e a noite de hoje ficarão na minha memória arquivados ao lado de outros dois momentos que jamais esquecerei: Diretas Já e Impeachment do Presidente Collor. Mas sinto uma diferença: os protestos de hoje parecem sem foco… Afinal, o que queremos? Passagem gratuita? Fim da corrupção? Fim da impunidade? Segurança? Queremos tudo isso e mais um pouco?

Suspeito que pro Brasil virar um país sério, não adiantam apenas protestos, manifestações e atos públicos. Só há uma saída: temos que fazer o Brasil mudar a partir de nosso voto.

Emendo com um excelente texto da Viviane Mosé, publicado hoje, que vale a reflexão.

O maior ganho da primavera árabe foi saber que as redes sociais podem levar as pessoas para as ruas. Isto sem dúvida é a grande e feliz novidade. Mas temos que aprender com isso: ir pra rua manifestar indignação é também uma catarse, gritamos, mostramos como somos contra, colocamos pra fora nossa indignação por tanto tempo contida, mas tem sempre um novo passo, que deve ser dado.

Que sociedade queremos, que valores? Que vamos reivindicar imediatamente? Podemos, por exemplo, começar do começo: que tipo de questão hoje é comum a todos os brasileiros? E aos paulistas? E os cariocas? Se não é somente pela passagem, precisamos dizer o que buscamos, nossa indignação precisa virar texto. Sem isso, a luta fica contra o poder, as oligarquias, os grupos econômicos, e se dispersa, como aconteceu com o movimento Ocupe Wall Street, onde a polícia também usou de violência, houve choque e tudo se dispersou. Hoje Obama invade as redes sociais e ninguém foi às ruas protestar.

O mesmo aconteceu com a primavera árabe. O Egito vive um momento muito difícil, falta luz duas vezes por dia, o desemprego aumentou, a inflação subiu, a economia se perdeu, a população está à deriva. Afastar um presidente e colocar outro parece não ter sido a solução. Sem contar os países onde o conflito cresce a cada dia, com centenas de milhares de mortos e sem perspectiva de solução. Depois de algumas semanas na praça, o que fazer? Esta deve ser a pergunta.

O verdadeiro ganho político é organizar-se para que, a cada desmando político, possamos ir às ruas, não somente agora. O protesto deve ser constante, precisamos acompanhar o que acontece, precisamos participar. Pelo cumprimento da lei do ficha limpa, pela prisão dos mensaleiros condenados, pela saída de Renan Calheiros, pela segurança em São Paulo e Rio, pela descriminalização das drogas, contra corrupção, ou por qualquer outra questão, precisamos sim protestar, sempre, com alvos, com texto. Protestar é mais do que ir pra rua indignado, protestar é também analisar, pensar, propor.

Não sou contra as manifestações, apenas alerto para que seja mais do que um grito, um desabafo, e que se transforme em um exercício diário de cidadania. Em nome de uma sociedade menos desigual, mais alegre mais justa.

20130617-224737.jpg São Paulo

20130617-224817.jpg Rio de Janeiro

20130617-224843.jpg Brasília

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4 comentários sobre “Sobre os protestos

  1. Liege disse:

    Estou a ver o CQC e pensando exatamente nisso. Vesti branco, gostaria de ter ido às ruas, mas tive um compromisso no mesmo horário. Ok, não há foco. No entanto, é um despertar. Espero, tal como você, que esse movimento dure. Que os votos sejam motivados por melhoras efetivas e céleres na educação e saúde. Que os altos impostos pagos sejam destinados conforme a Lei. Que os políticos, os funcionários públicos em geral percebam que os seus salários são pagos pelo povo… Enfim, vão acabar por aqui, por enquanto…

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  2. Bila
    Os movimentos atuais tem muito pouca eficácia prática e é possível que a curto prazo não tenham nenhum resultado. O que eles podem mudar é muito mais profundo e complexo: é o modo como nos vemos, como vemos a democracia – observaste que todos repudiam o envolvimento partidário? Ouso discordar da Viviane, porque o paralelo não é exatamente com a primavera árabe e sim com o Indignados da Espanha e o Ocup Walling Street. Tem um post ( http://umblogsobreotempo.wordpress.com/2013/06/11/fronteiras/) lá no blog sobre uma palestra que assisti com o Manoel Castelss – dá um Google no nome dele – o cara no mundo que mais entende hoje de movimentos sociais. O meu post é mais ou menos, mas esse cara é extraordinário!!! Tô adorando teus post, adoro esse assunto,as quero saber se aquele creminho BBB é oil Free? Kkkk

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    • Gabi, adorei teu post sobre a palestra do ômi – especialmente a explicação de que tudo está ligado aos sentimentos (afinal somos humanos, demasiadamente humanos, né?!). Não sou contra as manifestações e protestos, mas como tenho uma personalidade que tende a planejar as coisas, fico um pouco aflita quando não há um plano, ou pelo menos um sonho (sempre lembro do discurso do Martin Luther King) bem traçado. Mas, talvez, o “pulo do gato” seja justamente esse (e não percebi a sutileza): a mudança tem que acontecer de fora pra dentro. Ou seja, pra finalmente recuperar a auto-estima, entender que merece um país melhor, o povo precisa gritar, desabafar, protestar, participar dessa vultosa “terapia em grupo”, sair nos jornais e na TV, para, então, permitir submeter-se a uma mudança psico-socio-cultural. E isso não tem jeito: é um processo individual. Torço pra isso!
      Quanto ao BBB, diz ele ter “textura oil free”. Minha pele é inclinada aos cravos e espinhas (mesmo aos 40) e super se adaptou a ele ;)
      Beijos!

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