Totem e tabu

Recentemente li uma pequena biografia sobre a vida e a obra do Dr. Sigmund Freud, editada pela LP&M pocket, e fiquei encantada com o capítulo final, que traz um resumo das bases do pensamento social e político freudiano, inaugurado por ele em Totem e tabu (1913).

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A curiosidade falou mais alto e tratei de buscar algo mais sobre essa obra-prima e encontrei uma leitura relativamente fácil na coleção Freud para ler Freud, da editora Civilização Brasileira (Totem e tabu – um mito freudiano, por Caterina Koltai).

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Não tenho formação alguma em psicologia, sociologia, tampouco antropologia, mas achei muito interessante a lógica de Freud para mostrar a origem da cultura, das leis e da religião. O livro (que recomendo!) vai muito além, mas segue minha humilde tentativa de explicação do que seria esse mito freudiano.

Freud inicia descrevendo o que seria a mais primitiva organização social: a horda primeva. Nesta horda, o macho mais velho e forte (o pai) dominava, por meio da força e violência, os outros machos, possuindo todas as mulheres da horda e proibindo-as aos demais membros da tribo, impedindo o incesto por parte destes. Para isso, expulsava os filhos quando chegavam à idade adulta para que estes não fossem uma ameaça ao seu domínio. Aqui Freud destaca que o pai frustrava o desejo dos filhos por suas mães e irmãs, submetendo todos à sua lei, imposta pela força.

Em algum momento, acontece o complô dos filhos expulsos, que se revoltam contra a tirania paterna, decidindo matar o déspota que tanto odiavam e amavam ao mesmo tempo. De seres submissos que eram, tornaram-se ousados e cometem o parricídio, realizando em conjunto aquilo que individualmente nenhum deles teria sido capaz de fazer.

No entanto, outro passo tornou-se necessário para selar a existência durável do grupo: o festim totêmico. Neste banquete, os filhos devoram o corpo do pai assassinado, pois só ao comerem da mesma carne, incorporando a força e as virtudes que atribuíam ao pai e se identificando com ele, puderam se reconhecer como irmãos de sangue.

Após o ato canibal, os filhos se dão conta que o que cada um em segredo desejava era ser o único a ocupar o lugar o pai. Cientes de que isso os levaria a uma guerra fratricida na qual acabariam por se exterminar mutuamente, decidem renunciar tanto à satisfação incestuosa quanto à violência como meio de consegui-la, obrigando-se a buscar suas mulheres fora da horda, instaurando, assim, a exogamia. Freud destaca aqui a constituição dos dois tabus basilares: o homicídio e o incesto.

Visto de outra forma: ao matar o pai, os filhos deram vazão ao ódio, enquanto que o amor, que também sentiam, se transformou em sentimento de culpa, aliviado porque todos participavam da refeição. É justamente esse remorso que faz com que o pai se torne ainda mais forte do que quando era vivo. Como tentativa de solução ao sentimento de culpa, os filhos instituem novas leis, os dois tabus.

E foi assim que os irmãos deram fim à horda selvagem e instauraram o clã fraterno fundado sobre os laços de sangue. Foi por meio do assassinato do pai, com o qual os filhos mantinham uma relação ambivalente de amor e ódio, que puderam se descobrir irmãos.

A morte do pai retorna como significante por meio da figura do totem – animal comestível, inofensivo ou não, que identifica o clã e tem uma relação especial com o grupo. Por essa relação especial entenda-se o fato de ser considerado o ancestral do clã, um espírito protetor, e manifestada por meio da dupla proibição de matar o animal totem e comer sua carne. O totemismo é o precursor do que hoje chama-se religião.

Foi justamente a deificação do pai morto que resgatou os tabus e as restrições morais necessárias à vida civilizada e à cultura. Esta tese de Freud é repetida tempos depois em dois outros de seus textos: Psicologia das massas e análise do eu (1921) e Moisés e o monoteísmo (1939). Totem e tabu faz um paralelo muito interessante com o Complexo de Édipo, mas aí já é muita história pra esse post!

PS.: A parábola do pai da horda me fez lembrar muito o desconcertante livro/filme Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

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3 comentários sobre “Totem e tabu

  1. Tiago Brighente disse:

    Muito bom Bila! Esse cara mostra uma maneira muito interessante de compreender a relação entre as pessoas. Leitura muito bem recomendada. E que venha as próximas resenhas de Freud…

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  2. Carol disse:

    Muito interessante!
    Li alguma coisa sobre o início da exogamia, moral e ética no livro Ética, do Sérgio Sérvulo da Cunha. A parte inicial do livro é ótima mas depois ele se perde. Vou ver se eu releio essa parte e trago alguma coisa pra somar, rs!
    Bjs
    Carol

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  3. juliana de bem disse:

    vou te contar que tava ansiosa por esse post! fui lendo outras coisa e fui deixando esse pro fim, que é exatamente o que eu faço com a melhor parte da comida!!! hahahahaah! tinhas falado que eu ia curtir e curti muuuuito! essas coisas instigam a gente, e lógico tô com sede e quero mais!!! a nina me entregou o teu livro da filosofia e comecei a ler! AMANDO! depois te conto o que achei. Ahhhh, posta mais freud!
    beijosssss

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