Cachorros de palha

Difícil fazer uma resenha que cubra os tantos temas intrigantes de Cachorros de palha, do filósofo britânico contemporâneo John Gray. O professor da London School of Economics, por incrível que pareça, escreveu um livro quase sem jargões filosóficos e relativamente acessível ao leitor comum, mas muito perturbador. O subtítulo Reflexões sobre humanos e outros animais, dá uma pista de que Gray acredita que as bases do pensamento ocidental, fincado no humanismo e no iluminismo, estão baseadas em crenças arrogantes e equivocadas sobre o papel dos seres humanos no mundo.

Alguns trechos interessantes:

• Os humanos na Terra comportam-se como um organismo patogênico ou como as células de um tumor ou neoplasma. Crescemos em número e em transtornos para Gaia (a Terra) a ponto de nossa presença ser perceptivelmente inquietante. A espécie humana é agora tão numerosa que constitui uma séria moléstia planetária. Por volta do ano 2150, a biosfera deverá ter voltado, com segurança, à sua população de Homo sapiens pré-paga; algo entre meio e um bilhão.

• O crescimento da população humana ocorrido durante os últimos poucos séculos é parecido, mais do que com qualquer outra coisa, com os picos que ocorreram nos tamanhos das populações de coelhos, camundongos e ratos. Como nos casos deles, só pode ter vida curta. A fertilidade já está caindo em muitas partes do mundo. Conforme observa Morrison, os humanos são iguais a outros animais quanto à maneira de reagir ao estresse. Eles reagem à escassez e à superpopulação desligando o impulso reprodutivo.

• Hoje, apenas a ciência apoia o mito do progresso. O progresso da ciência é uma experiência diária, confirmada a cada vez que compramos um novo aparelho eletrônico ou usamos um novo medicamento. Na ciência, o crescimento do conhecimento é cumulativo. Mas a vida humana, como um todo, não é uma atividade cumulativa; o que se ganha numa geração pode ser perdido na próxima. Na ciência, o conhecimento é um bem puro; na ética e na política, tanto pode ser um bem quanto um mal. A ciência nos dá um senso de progresso que a vida ética e a vida política não podem dar.

• O impulso elétrico que inicia a ação ocorre meio segundo antes de tomarmos a decisão consciente de agir. Nós nos concebemos como deliberando sobre o que fazer, e imediatamente em seguida fazendo. Na verdade, em praticamente tudo em nossas vidas, nossas ações são iniciadas inconscientemente: o cérebro nos prepara para a ação e então temos a experiência de agir. Mesmo em coisas vivas nas quais a consciência é altamente desenvolvida, a percepção e o pensar normalmente acontecem sem consciência. Em parte alguma isso é mais verdadeiro que nos humanos. A percepção consciente é apenas uma fração do que conhecemos através de nossos sentidos. Em muito mais ampla medida, recebemos a maior parte através de percepção subliminar. O que aflora na consciência são sombras esmaecidas de coisas que já sabemos.

A má notícia é que o livro está esgotado. Comprei o meu na Estante Virtual!

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Créditos das imagens: bemsortido

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6 comentários sobre “Cachorros de palha

  1. Só o primeiro trecho que você cita já me deixou curiosa para ler este livro. Parece interessantíssimo. E acho importante pensarmos nessas questões futuras. Eu penso bastante.
    Obrigada pela dica!

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    • Carla, eu fiquei impressionada com essa possível explicação sobre a infertilidade humana! Faz todo sentido! No primeiro capítulo ele cita bastante o James Lovelock, que é o cara por trás da Teoria de Gaia, tese que enxerga a Terra como um superorganismo que tem seus próprios mecanismos de controle – inclusive a possibilidade de dizimar a raça humana quando conveniente. Gosto muito desse tema também :)

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